Do “o quê” ao “como”: o Secretário Executivo da CEPAL oferece uma aula magna sobre como gerir as transformações do desenvolvimento
A América Latina e o Caribe avançaram na identificação de muitas das lacunas que limitam seu desenvolvimento. No entanto, o desafio decisivo já não consiste apenas em definir quais transformações são necessárias, mas em construir as capacidades para conduzi-las, implementá-las e sustentá-las ao longo do tempo. Esse foi o eixo da aula magna ministrada por José Manuel Salazar-Xirinachs, Secretário Executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), que inaugurou a Etapa Online da segunda edição da Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares, iniciativa promovida pela CEPAL e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o apoio do CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe – e da Open Society Foundations (OSF).
A aula inaugural, ministrada na sexta-feira, 12 de junho de 2026, e intitulada “As armadilhas do desenvolvimento e como gerir as transformações indispensáveis”, abordou os principais desafios enfrentados pela América Latina e pelo Caribe em um contexto marcado por profundas transformações geopolíticas, tecnológicas e produtivas.
Durante sua exposição, José Manuel Salazar-Xirinachs argumentou que muitas políticas transformadoras não fracassam necessariamente por falta de diagnóstico, fragilidade técnica ou ausência de vontade política, mas porque são concebidas e implementadas em configurações político-institucionais marcadas por horizontes políticos limitados, fragmentação, capacidades institucionais frágeis, polarização e desgaste da legitimidade. Nesse contexto, advertiu que as políticas não podem ser formuladas como se operassem em uma região caracterizada por ciclos longos, cooperação fluida e capacidades consolidadas.
Diante desse cenário, o Secretário Executivo destacou que a gestão das transformações indispensáveis requer um marco analítico e instrumental composto por quatro elementos: capacidades institucionais TOPP — técnicas, operacionais, políticas e prospectivas — para orientar, implementar e adaptar as políticas públicas; governança para alinhar instituições, níveis de governo e atores não estatais; economia política para gerir atores, interesses, coalizões e janelas de oportunidade; e diálogo social para construir legitimidade e pactos sustentáveis.
“Nenhuma política transformadora deveria ser considerada completa se não incorporar explicitamente um modelo de governança, formulado com o mesmo rigor com que se avalia sua viabilidade técnica ou financeira”, afirmou.
Acrescentou que, na prática, isso significa que toda proposta de transformação deve explicitar pelo menos quatro dimensões essenciais: coordenação, arranjos políticos, sustentação e legitimação. Isso implica definir quem decide, como os conflitos são resolvidos, qual coalizão mínima sustenta a transformação, como sua continuidade é protegida diante de mudanças de governo ou de autoridades e de que forma sua legitimidade social é mantida ao longo do tempo.
A Etapa Online da Escola será realizada até 25 de setembro e contará com aulas ministradas por especialistas de destaque da CEPAL, do BNDES, bem como de governos, universidades e organismos internacionais. Ao longo desse período, as e os participantes aprofundarão os conteúdos abordados durante a Etapa Brasil, realizada em maio na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, e avançarão na elaboração de seus trabalhos finais.
Os trabalhos serão apresentados e debatidos pelas alunas e pelos alunos durante a Etapa Chile, que ocorrerá entre os dias 10 e 12 de novembro de 2026, na sede da CEPAL, em Santiago. O processo formativo proporcionará um espaço para o intercâmbio de experiências, a discussão de propostas de políticas públicas e a consolidação de uma rede regional de profissionais comprometidos com o desenvolvimento da América Latina e do Caribe.
A segunda edição da Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares reúne 66 participantes de 15 países da América Latina e do Caribe, sendo 33 brasileiros e 33 provenientes de outros países da região, em um ambiente de formação caracterizado pela diversidade institucional, territorial e de gênero.